Toda forma de

puerpério é válida

Sobre a armadilha da comparação, os bastidores que ninguém mostra e o direito de viver o pós-parto do seu jeito.
por Dra. Lorrane Morais·Psiquiatra
CRM-DF: 25961 RQE: 21009

Neste fim de semana estava eu comemorando a medalha de ouro de minha cunhada, que lindamente massacrou no jiu-jitsu as suas adversárias e que, pasmem (!), aos 40 minutos antes e 10 minutos depois estava amamentando o seu bebê. Sim, com 2 meses de puerpério ela iniciou os treinos e com 5,5 meses estava competindo e vencendo. E observá-la gentilmente abrindo mão de algumas coisas, readequando outras rotinas, para incluir um esporte em meio a um puerpério, e tudo isso de forma muito respeitosa para si própria e para a criança, trouxe minha mente de volta para a poltrona do consultório, em que vejo na prática o quanto cada puerpério tem suas particularidades, e todas elas são válidas.

Se você está lendo este texto, é bem provável que em algum momento, grávida ou já no pós-parto, você tenha se notado pensando: "Por que eu não consigo ser assim?". Seja diante de um story de uma mulher gravidíssima de 8 meses na academia com rostinho fino e braços definidos, ou diante de uma colega que voltou a trabalhar na sétima semana de puerpério, ou ainda de uma mãe que se orgulha em nunca ter deixado o filho com ninguém e amamentou por dois anos sem piscar.

Esse pensamento de impotência e questionamento tem nome, tem causa e tem, principalmente, acolhimento. Mas antes de chegar lá, preciso que você respire fundo, porque o que vou dizer pode soar simples e ainda assim levar tempo para ser absorvido de verdade:

Não existe um jeito certo de passar pelo puerpério. Existe o seu jeito, dentro do seu contexto, com os seus recursos, com a sua história.

O ringue invisível das mães
(na verdade o ringue invisível das mulheres sempre)

Vivemos numa época em que tudo é filtrado, compartilhado e aplaudido nas redes sociais. E o puerpério, um dos períodos mais intensos e vulneráveis da vida de uma mulher, não ficou de fora dessa lógica. O resultado é um ringue invisível onde, sem perceber, as mães se colocam para competir.

De um lado, o que eu chamo de puerpério da performance: a mãe que publicou foto com abdome sarado no terceiro mês pós-parto, a gestante que manteve a rotina de crossfit até o nono mês, a mulher que lançou um curso online enquanto amamentava, que voltou ao trabalho na décima semana sem aparentar cansaço nenhum, a que estudou e passou num concurso dificílimo durante uma fase em que as demais estavam “ges-tontas”. Essas imagens geram em muitas mulheres uma pergunta silenciosa e dolorosa: "O que há de errado comigo?"

Do outro lado, existe um segundo tipo de comparação, menos falada, mas igualmente potente, que é com o puerpério da entrega total. É a glorificação do sacrifício total: a mãe que abandona tudo pela maternidade e ostenta isso como medalha, que deixa seu autocuidado como última prioridade, que faz tudo sozinha, sem família, sem babá, sem rede de apoio,que se recusa a retomar eventos, e exibe isso como prova de entrega total. Esse discurso também faz vítimas. Ele silencia quem precisou voltar ao trabalho por necessidade financeira, quem não conseguiu amamentar, quem precisou de ajuda e se sentiu envergonhada por isso. Gera culpa em quem escolheu deixar o filho com a avó para ir ao salão e à academia.

Puerpério da performance e puerpério da entrega total: ambos os lados, por mais naturais que tenham sido e por mais que tenham sido postados com boa intenção, acabam tendo algo em comum, que é apresentar uma versão recortada e performática da realidade, e isso machuca quem está do outro lado da tela, já exausta, já se sentindo inadequada.

O que você não vê na foto

Como psiquiatra que acompanha mulheres na gestação e no pós-parto, posso te dizer algo com total convicção: os bastidores raramente aparecem.

A mãe que voltou ao trabalho em seis semanas talvez tenha feito isso porque precisava, porque sentia que ia enlouquecer em casa, porque o trabalho era sua forma de sanidade, ou porque estava financeiramente pressionada ou por não ter rede de apoio financeiro alguma. A puérpera fitness pode ter uma história de transtorno alimentar ou distúrbio de autoimagem que ninguém conhece. A mulher que faz tudo sozinha talvez não tenha escolha, ou talvez esteja acumulando um desgaste silencioso que vai aparecer lá na frente. Ou talvez todas elas estejam realmente bem, 100% bem, mas não vivam a realidade que você vive.

"Contexto não aparece em foto. E é exatamente o contexto que muda tudo."

Cada corpo carrega uma história. Cada família tem uma estrutura. Cada mulher tem uma rede de apoio, ou a ausência dela. Cada bebê tem uma demanda e um temperamento (rsrs). Cada puerpério é atravessado por variáveis que ninguém mais enxerga de fora.

O que o puerpério realmente é

O puerpério é um período de reorganização total: física, emocional, hormonal, identitária. Começa logo após o parto e, dependendo da mulher, seus efeitos podem ser sentidos por meses. Não é só "o tempo depois do bebê nascer". É uma travessia.

Nessa travessia, algumas mulheres vão se sentir melhor trabalhando. Outras vão precisar de mais tempo dentro de casa. Algumas vão querer se exercitar logo. Outras vão precisar de silêncio e descanso. Algumas vão precisar de babá. Outras vão preferir cuidar sozinhas. Algumas vão encerrar projetos. Outras vão iniciar novos.

Amamentar ou não amamentar. Trabalhar ou pausar a carreira. Pedir ajuda ou preferir autonomia. Exercícios precoces ou repouso prolongado. Redes sociais ou desconexão. Filho único ou prole numerosa. Não existe uma dessas opções que seja intrinsecamente melhor. O que existe é o que funciona ou o que é possível para cada mãe, dentro de cada realidade.

Quando a comparação vira sofrimento

A comparação é um comportamento humano natural. Nosso cérebro a usa como referência para avaliar onde estamos e para onde queremos ir. O problema começa quando ela deixa de ser informação e vira julgamento, principalmente quando o julgado é você mesma. Spoiler: quase sempre o julgamento é contra si.

No consultório, vejo com frequência mulheres que chegam não porque estão passando mal do ponto de vista clínico, mas porque estão se sentindo insuficientes. Que olham para o lado e sentem que não estão à altura. Que se perguntam por que não conseguem "dar conta" como a outra parece dar. Esse sofrimento é real, ele tem peso, e muitas vezes ele é mais exaustivo do que qualquer demanda concreta da maternidade.


A comparação social excessiva e o sentimento de inadequação no puerpério são fatores de risco reconhecidos para o agravamento da ansiedade e da depressão pós-parto. Se você percebe que esse sentimento está persistente, intenso ou interferindo na sua vida, converse com um profissional de saúde mental. Pedir ajuda não é fraqueza.

Como se comparar menos (e se cuidar mais)

Não se trata de ignorar o mundo à sua volta ou fingir que as redes sociais não existem. Trata-se de desenvolver uma postura mais consciente diante do que você consome e do que você sente.

Pergunte-se: quando você vê uma foto que te faz sentir mal, o que exatamente está sendo ativado? Culpa? Medo de não ser boa o suficiente? Saudade de uma versão anterior de você mesma? Essa pergunta, feita com gentileza, tem mais poder do que qualquer esforço seu nas redes sociais.

Lembre-se do contexto: você não sabe o que há por trás daquela imagem. Você não sabe a história, o suporte, os recursos, os sacrifícios silenciosos, os momentos que não foram fotografados.

Ancore-se no seu próprio chão: o que você tem? O que você está conseguindo fazer, mesmo que pareça pouco? Às vezes o maior feito do dia é ter cuidado do bebê e ter se alimentado. E isso é suficiente.

Construa sua rede: não de comparações, mas de apoio real. Outras mães que falem de verdade, não de vitrine. Profissionais que acolham. Pessoas que te lembrem de que você não está sozinha.

Toda forma de puerpério importa

A mãe que voltou ao trabalho na oitava semana e a que pediu licença por um ano. A que malhou durante a gravidez e a que ficou de repouso absoluto.

A que amamentou por dois anos e a que usou fórmula desde o primeiro dia. A que voltou pra academia com 1 mês e a que deixo o corpo “retornar” sozinho.

A que tem babá e a que cuida sozinha.

A que teve parto normal e a que teve cesárea.

A que se sentiu plena e a que se sentiu perdida.

Todas essas mulheres merecem respeito. Todas essas histórias são válidas. Todas essas formas de atravessar o puerpério existem por razões que muitas vezes estão muito além da escolha individual.

Quando paramos de competir, nos dois sentidos, tanto de "quem produziu mais" quanto de "quem se sacrificou mais", abrimos espaço para algo muito mais poderoso: a solidariedade entre mulheres que estão, cada uma à sua maneira, tentando dar o melhor de si.

Você não precisa ser a mãe performática, nem a mãe totalmente abnegada. Você só precisa ser você! Com seus limites, seus recursos, suas circunstâncias e, principalmente, com a generosidade de se olhar com mais compaixão do que você ofereceria a qualquer outra pessoa. Seu puerpério é válido. Do jeito que ele é. No ritmo que ele tem. Com as marcas que ele deixa.

Com cuidado e acolhimento,
Espaço Aurora.

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