Atividade física: menos pela endorfina imediata, mais pela serotonina a médio prazo

Quando a gente fala de atividade física, quase sempre vem aquela frase clássica: “faz bem porque libera endorfina”. E sim, isso é verdade. Só que também é verdade que minhas pacientes dizem nunca ver essa tal endorfina após o treino. Mas se você está pensando em saúde mental, especialmente ansiedade, depressão, TPM, puerpério, perimenopausa, a grande estrela da história não é a endorfina do pós-treino. É a serotonina que vai sendo ajustada aos poucos, com constância.


Imagina que seu cérebro é uma cidade, e a serotonina é tipo um sistema de iluminação pública. A atividade física não é fogos de artifício de 20 minutos depois da corrida. Ela é o “projeto de iluminação” que, com o tempo, vai deixando as ruas menos escuras, mais seguras, mais previsíveis. Não muda tudo num dia só, mas, semana a semana, o cenário interno vai ficando menos caótico.


Quando você se exercita com regularidade (não precisa ser atleta, juro!), o corpo começa a regular melhor alguns sistemas: sono, apetite, energia ao longo do dia. E é aí que a serotonina entra em cena: você passa a ter mais estabilidade de humor, menos oscilações bruscas, mais sensação de “consigo lidar com isso”, em vez de “não vou dar conta nunca”.


Outra coisa importante: a atividade física funciona, muitas vezes, como um “organizador interno”. A mulher que está sobrecarregada, com mil papéis (trabalho, casa, filhos, estudo, família, hormônios todos dando opinião) tende a sentir tudo intensamente. O exercício não apaga problemas, mas ajuda a diminuir o volume do sofrimento. A mente fica um pouco menos acelerada, o corpo menos tenso, a reação às coisas menos explosiva.


E não, não precisa virar “a louca da academia” pra isso funcionar. Para o cérebro, o que mais importa não é o treino perfeito, e sim a regularidade imperfeita: caminhar 20–30 minutos quase todos os dias, dançar na sala, fazer uma aula online, subir escada em vez de elevador, descer um ponto antes. O seu corpo, mulher, não é fiscal de performance, ele é fã de repetição.


Também vale dizer: se você está deprimida, ansiosa, esgotada, é totalmente compreensível não ter vontade nenhuma de se mexer. Nessa fase, a expectativa não pode ser “treinar pesado”, mas microvitórias: levantar da cama, tomar banho, descer com o lixo, dar uma volta no quarteirão, fazer 5 minutos de alongamento. Isso também é atividade física e, para o cérebro, já é um recado: “ainda estou aqui, ainda estou tentando”; e essa ativação comportamental vai te ajudar em médio prazo.


Outro ponto delicado: atividade física não é castigo pelo corpo, nem punição pelo que comeu. Quando ela vira mais uma fonte de culpa (“não fui”, “falhei”, “sou fraca”), perde metade do efeito terapêutico, e às vezes preciso dar bronca em algumas de vocês que a tomam com rigidez. A ideia é justamente o contrário: ser um momento em que você se lembra que tem um corpo, que ele é seu aliado, e que ele pode te ajudar a atravessar fases difíceis com um pouco mais de potência.


E, claro: para algumas mulheres, só o exercício não é suficiente. Muitas vão precisar de medicação, psicoterapia, ajustes de sono, avaliações hormonais. E tudo bem. A atividade física, nesse contexto, entra como coadjuvante e refinamento: melhora a resposta ao tratamento, ajuda na prevenção de recaídas e fortalece a sensação de autonomia, aquela sensação de “eu também faço parte ativa da minha melhora”.


Se eu pudesse resumir numa frase, seria assim:Você não precisa se exercitar para “ficar feliz” logo depois do treino, porque honestamente, a maioria não sai endorfinada não! Você se exercita para, daqui a algumas semanas e meses, parecer um pouco mais com você mesma de novo. E se hoje tudo que você consegue é caminhar 10 minutos no quarteirão, com a roupa que tiver, no ritmo que der… isso já é um começo. A serotonina não cobra performance, ela só pede constância.Então peguem a dica da dra Lorrane e façam um compromisso consigo mesmas, menos pelo hoje, mais pelo futuro.

Copyright © espaçoaurora – Todos os direitos reservados.