“Doutora, eu aguentei tudo: trabalho, casa, filho doente, mãe idosa… E agora vivo ansiosa, estressada, sobrecarregada, com a mente agitada e o fôlego curto. Já a minha filha, que eu tentei poupar de tudo, parece vazia; não entendo isso! Ela não trabalha, depende de nós e diz que nada faz sentido, está sempre deprimida.” Essa fala, que escuto com frequência de mulheres entre 40 e 60 anos, escancara um desencontro geracional. De um lado, mães treinadas para “funcionar sob pressão”: dupla jornada, pouco sono, muita cobrança, pagando hoje o preço em forma de exaustão crônica. Do outro, filhos que tiveram acesso, conforto e menos fricção… e, paradoxalmente, relatam um buraco de sentido: anestesia emocional, comparação infinita, sensação de inadequação. O rótulo muda - estresse de um lado, vazio do outro - mas o sofrimento é real nos dois casos. A pergunta é: como chegamos aqui e o que funciona para cuidar melhor, em cada caso?
O que pegava até “ontem”: o estresse da dupla jornada
As mulheres que somos hoje e as que vieram antes de nós leram pouco sobre burnout, mas elas viveram o conceito! Trabalho pago de dia, trabalho não pago à noite (rotina de casa, filhos, cuidado de familiares). O efeito dessa sobrecarga na saúde mental feminina é amplamente documentado: o peso do trabalho doméstico e de cuidado associa-se a piores desfechos emocionais em mulheres, mais do que em homens, mesmo quando ambos estão empregados. Então o óbvio acontece: taquicardia, irritabilidade, dor nas costas, enxaqueca, crises de ansiedade. Sintomas agudos que pediam soluções rápidas para manter a roda girando. E, por Deus, somente nós sabemos o quanto buscamos soluções pra manter todos os pratos girando.
O que pega “hoje”: vazio, comparação e hiperexigência
A queixa da nova geração tem outro sabor: vazio. Não é só pressão por produtividade; é a sensação de nunca ser “o bastante” em todas as frentes: carreira, corpo, maternidade, relacionamentos, propósito, performance. Três forças estão por trás disso:
Vazio existencial: quando a vida perde textura
O “vazio” não é frescura nem preguiça; é hipoexcitação do sistema de recompensa somada a desalinhamento de valores. Quando falo que o “vazio” não é frescura, estou dizendo que seu cérebro não está “aceso” pelo que deveria acender. Baixa excitação do sistema de recompensa significa que o circuito que normalmente dá sensação de prazer e motivação (o tal “ah, vale a pena!”) está funcionando em volume baixo. O resultado prático disso é menos ânimo, menos curiosidade, menos vontade de começar; e, quando começa, menos sensação de “legal, mandei bem”. A segunda peça é o desalinhamento de valores. Você pode estar gastando tempo e energia em coisas que não conversam com o que importa de verdade pra você (valores, propósito, tipo de vida que deseja). Aí o cérebro olha para a agenda e pensa: “ok, eu faço… mas pra quê?”.
O cérebro aprende a buscar micro-picos de dopamina (scroll de tela, dopamina rápida de jogos, conferência de views) e desaprende persistência e tolerância à frustração, que são duas habilidades essenciais para construir sentido. Quanto mais a vida vira uma sequência de tarefas e métricas, menos sobra espaço para coisas com densidade: silêncio, presença, rituais, vínculos, contribuições reais.
Outra peça: estamos menos treinadas (e treinando menos as novas gerações) para atravessar frustração e tédio. A hiperdisponibilidade de estímulos e o culto à performance reduzem a tal “janela de tolerância”. Resultado? Relações mais fugazes (desistimos rápido), menos altruísmo (sacrifícios parecem sempre “perda”), mais foco no eu idealizado e menos no “nós possível”. Sem a prática de cuidado mútuo, o mundo interno empobrece e o vazio cresce. Não estou falando que devemos romantizar sofrimento, e sim reaprender a atravessagem: dar significado a pequenas renúncias, sustentar desconforto, lapidar paciência. Sentido nasce de compromisso.
Contextos críticos nesses cenários
Transições de identidade, como começo de carreira, mudança de cidade, término, maternidade, perimenopausa, amplificam tanto o estresse quanto o vazio. Na perinatalidade, por exemplo, a promessa de encontrar um “sentido de vida automático” contrasta com noites em claro, culpa e isolamento. O vazio aparece como anestesia (“não sinto nada”) ou como hiperexigência (“tenho que dar conta de tudo”). Avaliar e cuidar nesses marcos de mudança é estratégico: protege a saúde mental agora e regula o senso de propósito nos próximos anos.
O que funciona — ontem e hoje
A boa notícia: o cuidado se atualizou.
Sono e corpo primeiro. Higiene do sono, luz da manhã, exercício regular e alimentação minimamente planejada estabilizam humor e energia.
Rotina que protege. Agenda realista, limites de trabalho, blocos de foco e menos tela à noite (protetor de sono/humor).
Relações que sustentam. Ajuda concreta + rituais de vínculo reduzem solidão; isso é fator protetor, não mimo.
Psicoterapia com método. TCC e abordagens baseadas em evidência tratam ansiedade, depressão e perfeccionismo; trabalham crenças de desempenho, comparação e evitação.
Medicação quando indicada. Com critérios (gravidade, prejuízo, risco), psicofármacos seguem seguros e eficazes sob acompanhamento
Do rótulo à vida que cabe em você
Em vez de trocar um rótulo por outro, a ideia é sair da etiqueta e voltar ao ajuste fino: entender o que o seu cérebro precisa (biologia), o que sua rotina permite (contexto) e o que faz sentido pra você (valores). Quando esses três eixos se alinham, o nome do problema importa menos do que a vida voltando a andar. Se esse texto te descreve, saiba que dá pra recalibrar: com informação confiável, passos pequenos e consistentes e, quando preciso, acompanhamento técnico. O primeiro passo não precisa ser heroico, precisa ser tangível. Procure uma avaliação qualificada. Na Aurora, unimos psicoterapia, medicina e ciência com empatia e decisão compartilhada, para transformar sintomas em estratégias.
Referências e leituras úteis
Curran T, Hill AP. Perfectionism Is Increasing Over Time: A Meta-Analysis of Birth Cohort Differences. Psychological Bulletin. 2019.
U.S. Surgeon General. Our Epidemic of Loneliness and Isolation: The U.S. Surgeon General’s Advisory. 2023.
World Health Organization. Social determinants of mental health; Mental health and COVID-19: early evidence on the pandemic’s impact.
Meta-análises e revisões em uso de redes sociais e saúde mental (associação com comparação social, sono e sintomas depressivos/ansiosos): ver Journal of Affective Disorders e Current Opinion in Psychology (2018–2023).
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